segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Sabe, hoje de repende acordei e me senti muito velho.
Notei que a vida tinha assim passado quando me vi no espelho e enxerguei aquela funda ruga nos olhos cansados e percebi que aquela sujeira no canto do espelho estava lá já fazia muito tempo.
Eu tinha esquecido que o tempo passa e que as coisas não mudam se não as fazemos mudar.
Um dia me vi no espelho e ainda era jovem, a sujeira era recente na moldura.
Agora estava tudo impregnado: a sujeira, a ruga funda.
Não dava mais pra mudar.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Ainda sim[...] Nem sei mais.

Hoje, depois de muito andar a esmo, retornei à nossa morada, amor. E te senti quase perto, quase em mim.
Algo não muito usual. Já te disse que tinha te perdido em tudo, em todos os lugares e coisas, que tu não estavas aqui, no meu ser, mas por alguns momentos pude sentir. Fui beijada pela mesma textura da tua boca, e todas aquelas cenas voltaram à tona, fui invadida pela antiga onda.
Tive vontade de me afogar naquele mar, embebedar meus pulmões daquela gota seca que foi te amar.
Eu não poderia. Sabe aquele gosto acre amor? De quem não foi quisto? É dele que eu sobrevivo, mas você não saberia como sê-lo. Sempre te quis, desde a primeira ânsia, antes de todo e qualquer sentido. Te quis sem ver, sem ouvir. Eu não tinha provado teu cheiro, teu gosto, teu timbre ainda não tinha me feito tremer como estremecem as entranhas de qualquer caixa sonora. Reverberei. Mas sem nada disso já eras meu.
E quando pude sentir tudo verdadeiro no meu falso mundo é que caí no abismo. Porque nem um pedaço teu que fosse me pertencia. E voltando ali, onde tudo começou e acabou, de certa forma percebi que o que eu tinha amado era um ideal, algo pelo qual eu não podia lutar. Amei o que eu queria que tu fosses. Já te disseram que não se muda ninguém? Eu não conseguiria te moldar.
Sabe aquele meu ideal, amor? Ele permanece, é talvez a única coisa que me faça pensar no amanhã.
Não te amo, amor. E ainda te amo mais que nunca.

sábado, 4 de outubro de 2008

Reticências [...]

Sabe, a proporção que tentamos fugir de alguma coisa é a mesma proporção com que ela nos persegue.
No fim, ninguém se liberta.
Estamos todos presos, contidos e não há nada a fazer a não ser criar outra realidade.
De tudo restam essas opções, aceitar os muros ou fingir que eles estão lá por conveniência. Entender que não podemos, simplesmente não podemos ou pintar tudo de rosa pra parecer mais deglutível.
Viver na mentira é sempre mais fácil, e de tanto pensar que é verdade acaba sendo.
Ainda sinto vontade de gritar tudo aquilo, mas a vacuidade que aqui se instalou não permite que o som se propague.
Melhor ficar calado.

domingo, 14 de setembro de 2008

Constatações são mais fáceis que sonhos


E o que sobrou de tudo aquilo? Não me terias como antes, por nem mais uma vez.Depois que você resolveu jogar tudo fora por pura indecisão, [eu] decidi que já era, entendeu? Preciso cuidar de mim, preciso que entendas isso. Não podia passar a vida inteira esperando que tu descobrisses se era isso mesmo que tu querias, ficar comigo ou com mais três na outra esquina? Não podia ser só mais uma válvula de escape, não podia mais ser só um momento em que tu fugisses te ti mesmo e do que aquela tua tosca vida havia te tornado. Não podia ser só uma certeza de sexo bom após a ligação. Eu não era só aquilo, teu poço de prazeres.

Era bem mais que isso, era bem mais o que eu queria, não que tu te virasses pro lado e sequer fingisse que tinha sido algo mais que sexo casual, queria que tu olhasses fundo nos meus olhos e enxergasse a minha alma, queria que aquele momento de gozo nos unisse celestialmente. Não era só o meu corpo o que eu te entregava, era eu inteira que estava em teus braços, todos os meus anseios, meus sofrimentos, meus fluidos, prazer, meus sonhos. Era eu como nunca me mostrava pra ninguém, só eu sem nenhuma máscara. Nem assim você pôde notar. Não percebeu enquanto me possuía que eu só podia mesmo ser tua. E a cada momento de não-ver eu já não era a mesma, já não preservava aquela paz que sempre carrego comigo. Pouco a pouco foste me tornando só aquela boneca, mero instrumento do teu prazer e eu não podia mais permitir que esse meu estado de desconsolo se prolongasse. Não podia deixar de ser [no sentido mais literal da coisa].
Então pra não abandonar meu eu, aquilo que ainda me fazia viva, minha essência, tive que deixar minhas obcessões pra trás, tive que abdicar do meu amor, desejo, doença por ti. Não pude mais alimentar meu sonho, meu desejo de que numa dessas noites, de repente tu entendesses que era eu, era eu tudo aquilo pelo qual tu procuravas, era em mim que encontrarias a felicidade, porque não podia ser diferente, nosso êxtase já mostrava tudo isso.
Não pude mais planejar nossas belas viagens, nem as brigas futuras por ciúme bobo. Nossos filhos foram abortados no pensamento e aquela minha imagem de um casal velho e feliz passeando no fim da tarde de domingo ficou por aí perdida. Você não era a minha metade. Não, não seríamos nós naquela foto do convite de Casamento, nem no album de formatura da faculdade do nosso primogênito, não teríamos "Bodas de Ouro", nem de "papel". Sequer assinaríamos um papel.
E eu tive que me contentar com lembranças suadas e ofegantes. Era isso que havíamos sido, suor e respiração falha. Meu imenso amor de um lado, de ti desejo de carne, de pele, de sangue. Não adiantava pensar em mais nada, nem continuar com o que me corroía.
E mesmo que te deixar signifique abandonar pequenos pedaços de mim, deixar pra trás todos os meus planos, arrancar com foice um amor cravado, o que não podia era deixar que me destruísses, assim, dia-a-dia me matando por dentro, consumindo minhas esperanças de felicidade, porque sem ti vai ser muito difícil, mas contigo...
Não "seria".


domingo, 7 de setembro de 2008

Carta ao ex-amor


É dessa sensação que falo e que tinha tanto medo, te perder dentro de mim. De repente tentei lembrar do teu rosto e só me sobrou uma imagem distante, até disforme e teu cheiro não mais me pertencia, tua presença constante fugiu de mim.
É nessa falta de ti que eu me negava a acreditar, nessa inconstância em saber de ti, em lembrar que mesmo estranhamente, me fizeste tão feliz e não podia ser diferente.
Meu pouco me importar como anda tua vida, quantos sorrisos tu tens dado por dia, quantos fins de tarde tem te presenteado, quantos amigos tu fizeste no último fim de semana e quantas doses foram necessárias pra te fazer ficar meio alto. Qual a música que te prende quando tu estás muito triste e como é mesmo aquela expressão que só tu sabes fazer quando alguma coisa não te agrada?
Não sei mais das alegrias, nem me encho delas se alguma coisa relativa a ti me volta à memória.
Era disso que tinha medo, de seres apenas mais um fantasma na minha atormentada adolescência, de seres só mais um, alguma sombra de um passado sem importância, então nada teria valido a pena, nem meus choros no fim da noite por não te ter por perto, nem minha ânsia em ouvir tua voz, nem minha vontade de sentir de qualquer maneira, me contentando com migalhas de tua existência. Meu altruísmo sem mais nem menos foi jogado fora e passei a me importar um pouco mais com o que eu sentia, dessa vez sem estares envolvido de maneira direta ou indireta com isso.
Só quis mesmo me permitir sonhar com coisas palpáveis e não pude evitar que pouco a pouco fosses fugindo de mim. O amor que quis preservar a vida inteira não era mais meu, simplesmente passou, talvez da mesma boba maneira que tenha surgido. Não te amo mais.
E por não mais te amar não sei que rumos tomar, não sei mais por quem devo agir ou pensar, estive tanto tempo presa a sensação de te ter aqui, intrinsecamente, que não sei caminhar sozinha, é como se estivesse prestes a atravessar uma fronteira, onde de um lado ficam as poucas sensações que vivi e todo amor que guardei por ti, e do outro, resta um caminho que não sei onde vai dar, morro de medo de conhecer.
“Falar do que foi pra você, não vai me livrar de viver”. É disso que preciso agora, preciso viver, sem estar em função de ninguém e nada me livra disso. Acabei mesmo fazendo desse sentimento uma razão pra não pensar em sentir, não pensei, deixei aflorar tudo ao extremo, meu mais extremo amor, minha extrema saudade, meu maior desejo.
Agora estou de mãos vazias, sem mais choro de madrugada, sem saudade apertando no peito, sem me importar com quantas meninas bobas tu estás te divertindo, querendo profundamente que tu sejas muito feliz e procurando de maneira graduada lidar com meus sentimentos, mesmo que tão poucos nesse momento, preciso aprender a confiar e acreditar no amor, preciso descobrir tantas novas coisas, tantos outros sabores e você dificilmente estará entre eles. Preciso descobrir uma maneira de te guardar, como peça especial e essencial que foste, meu primeiro, estranho, amor.
Por enquanto vou só seguindo com algumas antigas canções e me deleitando em lábios desinteressantes. Um dia descubro uma congruência pra tudo isso.



Pra se ler ouvindo Sentimental (Los Hermanos- Rodrigo Amarante)

domingo, 24 de agosto de 2008

Segui meu caminho em frente com firmeza, sem virar para trás para olhar o que já tinha vivido. A estrada parece aterrorizante quando não se sabe ao certo onde ela vai dar. Mesmo assim não vacilei, tinha que seguir para algum rumo, qualquer lugar que me levasse embora de onde eu tinha sido.
Nada mais me pertencia, nem os dias que haviam me abadonado, nem os que se seguiriam, éramos só eu e meu corpo limpo, lavado de sensações, minha pequena bolsa de prata, meus pés descalços no meio do tempo e meu pequeno diário desfolhando ao vento, entregando ao mundo tudo o que eu não queria mais, minhas antigas fotos e sorrisos, meus sentimentos mais íntimos, os sonhos que eu tinha escondido permaneceriam sem ser conhecidos. Rasguei cada folha como uma punhalda na alma, fragmentando tudo em papéis perfumados e envelhecidos. Não quis ser mais nada, nem viria a ser. Figura sem nome, andarilho, cidadão do mundo. Pode me chamar de solidão.

sábado, 2 de agosto de 2008

13 minutos

E no ápice da dor construo meu cárcere, vou por ali conjugando meus verbos mais temidos, mas que tão erroneamente dão sentido ao que sobrou de mim. Não sei mais por onde seguir, por quais abismos devo me jogar, só sei do sentido doce que tinha a vida e que transformou-se nesse mar de tormento. Não mais amo e só amo. Virou cólera. Sorrio quando devo, quando reclusa estou sem expressões. Se muito falo é só tentando calar as coisas tristes que aqui se abrigam. E se pareço alegria, só pareço. Lá no fundo do meu poço de mágoas não tenho nada além delas. Talvez um pouco de uma tola esperança que nunca avivará. Prossigo casca, oca de coloridos, cheia de vazios e alguns trocados que me tiram do marasmo. Desaquieto. Mas o frio ainda arde aqui dentro.