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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Sobre amores que não passam

As coisas poderiam ter ocorrido de outra forma, podíamos ter brigado menos, nos amado mais, eu podia ter passado por cima de minhas feridas e orgulhos e você podia ter jogado aquela droga de vida fora (acabou sendo assim), e não estou me referindo à vida em si, mas ao que você vinha fazendo dela.
Eu já não sei se conheci o amor e quando penso em você só me sobra um profundo e extremo vazio, vacuidade mesmo, daquela que nem mesmo a boas lembranças conseguem preencher. A saudade me passa longe. Além do vazio ainda tem uma dor, sabe? Uma dor em saber que de alguma forma algo poderia ter sido diferente.
Não sei se isso é lamento.
Não sei dar nome ao que sinto e o que me volta à memória quando penso em você é só essa sensação, podíamos ter feito diferente.
Sinto culpa, desespero, como pude deixar a relação ruir assim dessa forma? De um jeito que não tem volta? Não podemos mais sentar à mesa e jogar na cara um do outro o quanto nos odiamos e amamos, sente a proximidade dos sentimentos? Odeio tantas coisas em ti que não saberia listar, mas ao mesmo tempo te amo, talvez não com tanto afinco como seria se as coisas tivessem dado certo, é amor, só que ele não me desperta tanto quanto o que não agrada, o meu amor por ti não me deixou tantas marcas.
Acho ainda que o que está mais marcado é o fato de eu não ter feito nada para reverter o quadro, simplemente me sentei em frente a ele e aguardei pelo desfecho.
Ainda não tinham me ensinado a pintar.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Aprendi a dizer adeus.

Aprendi a deixar as mágoas pra trás e saber ver o lado bom da convivência.
Aprendi a lembrar das brincadeiras infantis e das rodas de violão.
Dos apelidos bobos, dos elogios sem fundamento.
Aprendi a guardar cada pedacinho, a sentir um amor, uma ternura, uma saudade profunda que nada acalma.
Aprendi que nessas horas, na dor do parto, a ausência é doce, é quase como se não existisse.
Aprendi a respeitar a figura, o nome, a personalidade, o homem.
Aprendi a dizer te amo com uma fé que eu desconhecia, que eu até desacreditava.
Aprendi que no fundo sobram tantas coisas que não cabem em palavras e as gavetas cheias não preenchem em nada.
Aprendi que quando as coisas são abruptas alguns rastros são deixados sem que muitos percebam. E aquela aliança na pia do banheiro vai ficar pendurada no meu pescoço.
Aprendi que as perdas engrandecem, tristemente.
E que o choro não se torna tão rotineiro quando o coração é afagado.
E que a dor de não ter dito algumas coisas e feito tantas outras ecoa por dentro como se a sala fosse grande e vazia -era grande na verdade, mas sempre tinha alguém.
Aprendi que as pessoas vem e vão sem nem tomar ciência disto, de que um dia terão que ir e deixar um monte de planos.
Talvez fôssemos passar alguns reveillons em Paris, talvez voltássemos àquela praia virgem no interior, eu irei e voltarei, se assim for possível.
Mas o manto do mar envolveu-o na partida, tragado pela mesma praia que tanto amou e a ida se fez bela, embora mórbida, triste, bela.
Eu disse adeus.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Sabe, hoje de repende acordei e me senti muito velho.
Notei que a vida tinha assim passado quando me vi no espelho e enxerguei aquela funda ruga nos olhos cansados e percebi que aquela sujeira no canto do espelho estava lá já fazia muito tempo.
Eu tinha esquecido que o tempo passa e que as coisas não mudam se não as fazemos mudar.
Um dia me vi no espelho e ainda era jovem, a sujeira era recente na moldura.
Agora estava tudo impregnado: a sujeira, a ruga funda.
Não dava mais pra mudar.

sábado, 4 de outubro de 2008

Reticências [...]

Sabe, a proporção que tentamos fugir de alguma coisa é a mesma proporção com que ela nos persegue.
No fim, ninguém se liberta.
Estamos todos presos, contidos e não há nada a fazer a não ser criar outra realidade.
De tudo restam essas opções, aceitar os muros ou fingir que eles estão lá por conveniência. Entender que não podemos, simplesmente não podemos ou pintar tudo de rosa pra parecer mais deglutível.
Viver na mentira é sempre mais fácil, e de tanto pensar que é verdade acaba sendo.
Ainda sinto vontade de gritar tudo aquilo, mas a vacuidade que aqui se instalou não permite que o som se propague.
Melhor ficar calado.

domingo, 24 de agosto de 2008

Segui meu caminho em frente com firmeza, sem virar para trás para olhar o que já tinha vivido. A estrada parece aterrorizante quando não se sabe ao certo onde ela vai dar. Mesmo assim não vacilei, tinha que seguir para algum rumo, qualquer lugar que me levasse embora de onde eu tinha sido.
Nada mais me pertencia, nem os dias que haviam me abadonado, nem os que se seguiriam, éramos só eu e meu corpo limpo, lavado de sensações, minha pequena bolsa de prata, meus pés descalços no meio do tempo e meu pequeno diário desfolhando ao vento, entregando ao mundo tudo o que eu não queria mais, minhas antigas fotos e sorrisos, meus sentimentos mais íntimos, os sonhos que eu tinha escondido permaneceriam sem ser conhecidos. Rasguei cada folha como uma punhalda na alma, fragmentando tudo em papéis perfumados e envelhecidos. Não quis ser mais nada, nem viria a ser. Figura sem nome, andarilho, cidadão do mundo. Pode me chamar de solidão.

sábado, 2 de agosto de 2008

13 minutos

E no ápice da dor construo meu cárcere, vou por ali conjugando meus verbos mais temidos, mas que tão erroneamente dão sentido ao que sobrou de mim. Não sei mais por onde seguir, por quais abismos devo me jogar, só sei do sentido doce que tinha a vida e que transformou-se nesse mar de tormento. Não mais amo e só amo. Virou cólera. Sorrio quando devo, quando reclusa estou sem expressões. Se muito falo é só tentando calar as coisas tristes que aqui se abrigam. E se pareço alegria, só pareço. Lá no fundo do meu poço de mágoas não tenho nada além delas. Talvez um pouco de uma tola esperança que nunca avivará. Prossigo casca, oca de coloridos, cheia de vazios e alguns trocados que me tiram do marasmo. Desaquieto. Mas o frio ainda arde aqui dentro.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Fuga



Não sei ainda se foram anos ou dias, fato é que algumas lembranças se perderam em meio à tempestade e não há mais como
recuperá-las.
Abandonou-me o gosto daquela boca ausente, o sentido para o qual eu me dirigia, aquela luz, sempre a luz por onde caminhávamos.
E tudo o que restou foi aquele cheiro acre. Como se nenhuma nuvem doce pudesse voltar a me envolver.
Não sei se foram anos, dias, momentos, lembranças. Sei apenas que se foram. Abandonaram-me assim como se não merecesse suas companhias. Privaram-me do adeus e partiram.

O que era bom já não volta.







Perdida entre o vazio desses dias frios...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Traça-me

Entrego-me às traças...
Que agora, possam então levar-me do tédio que me prende.
Rompam as fibras desse pano roto que me encobre e suguem-me até o escuro que as acomode.